AS DUAS PULGAS E A GESTÃO ESCOLAR

Artigo de Tobias Ribeiro
Coordenador do Programa Gestão Escolar de Qualidade

Existe um consenso no meio educacional de que a escola é um ambiente diferente de outras organizações e exige de quem a administra o conhecimento de educação e das relações humanas. Isso não se discute mesmo, embora também não baste ser apenas um bom educador para ser um bom gestor.

Nesse contexto, porém, existe uma resistência dos educadores aos modelos de gestão, com medo do engessamento, da perda da autonomia e da agressão à gestão democrática, que muitas vezes torna-se uma “democratite” por falta de foco, lentidão nas decisões e confusão no desempenho dos papéis, resultando nos baixos resultados de aprendizagem dos alunos – o que é o mais grave.

A falta de um “modelo” de gestão que oriente diretores e coordenadores pedagógicos faz com que , antes de tudo, não se possa avaliar objetivamente a qualidade da gestão que está sendo praticada, uma vez que não existem parâmetros definidos para isso. Além do mais, na falta de um bom diagnóstico, o melhoramento da instituição fica também comprometido e, no planejamento do novo ano letivo, algumas atividades são criadas como resultado da “obrigação” de inovar, inchando o calendário anual, com foco excessivo nos eventos e não nos processos.

Muitas escolas caem na armadilha da inovação pela inovação e alguns gestores tornam-se novidadeiros, introduzindo na rotina de suas escolas uma série de boas ideias, desarticuladas entre si, mas com dificuldades para aprimorar o que já existe. Isso lembra a história das duas pulgas, contada por Max Geringher.

Duas pulgas estavam conversando e uma disse para a outra:

- Sabe qual é o nosso problema? Nós não voamos, só sabemos saltar. Daí, nossa chance de sobrevivência quando somos percebidas é zero. É por isso que existem muito mais moscas do que pulgas no mundo: moscas voam.

E elas tomaram a decisão de aprender a voar. Contrataram os serviços de uma mosca, entraram num curso intensivo e saíram voando. Passado algum tempo, a primeira pulga falou para a outra:

- Voar não é o suficiente, porque ficamos grudadas ao corpo do cachorro, e o nosso tempo de reação é menor do que a velocidade da coçada dele. Temos de aprender a fazer como as abelhas, que sugam e levantam voo rapidamente.
E elas contrataram os serviços de uma abelha, que lhes ensinou a técnica do chega-suga-voa. Funcionou, mas não resolveu. Porque, como a primeira pulga explicou, a bolsa delas para armazenar sangue é muito pequena e, por isso, tinham que ficar sugando por muito tempo. Conseguiam escapar, mas não estamos se alimentando adequadamente. Achavam que tinham que aprender com os pernilongos o como é que eles conseguiam se alimentar com mais rapidez.
E, então, um pernilongo lhes ensinou como incrementar o tamanho do abdômen. E as duas pulgas foram felizes. Por poucos minutos. Como tinham ficado muito maiores, sua aproximação era facilmente percebida pelo cachorro. E elas começaram a ser espantadas antes mesmo de conseguir pousar. Foi aí que encontraram uma saltitante pulguinha dos velhos tempos:

- Ué, o que aconteceu com vocês? Vocês estão enormes! Fizeram plástica?

- Pois é, nós agora somos pulgas adaptadas aos grandes desafios do século XXI. Voamos ao invés de saltar, picamos rapidamente e podemos armazenar muito mais alimento.

- E por que é que vocês estão com essa cara de subnutridas?

- Isso é temporário. Já nos consultamos com um morcego, que vai nos ensinar a técnica de radar. E você?

- Ah, eu vou bem, obrigada. Forte e sacudida.

Era verdade. A pulguinha estava viçosa e bem alimentada. Mas as duas pulgonas não quiseram dar a pata a torcer:

- Mas você não está preocupada com o futuro? Não pensou numa consultoria?

- E quem disse que eu não tenho uma? Contratei uma lesma como consultora.

- Hã? O que lesmas têm a ver com pulgas?

- Tudo. Eu tinha o mesmo problema de vocês. Mas ao invés de dizer para a lesma o que eu queria, deixei que ela avaliasse bem a situação e me sugerisse a melhor solução. E ela ficou ali três dias, quietinha, só observando o cachorro, tomando notas e pensando. E então a lesma me deu o diagnóstico: “Você não precisa fazer nada radical para ser mais eficiente. Sente-se no cocuruto do cachorro. É único lugar que ele não consegue alcançar com a pata”.

Essa simples historinha nos ajuda a chamar a atenção para alguns conceitos importantes, úteis para a gestão:

1. Um bom diagnóstico é essencial para um que um plano de trabalho seja eficaz e produtivo!
2. A melhoria de nossos serviços não necessariamente depende de grandes inovações, mas no reposicionamento ou alinhamento do que já fazemos!
3. Muitas coisas podem ser melhoradas em nossos serviços sem que dependam de grandes investimentos ou recursos!
4. Um olhar externo tende a contribuir muito para que enxerguemos o que o nosso olhar já viciado não nos permite perceber !
5. As ações de capacitação precisam passar por bons diagnósticos como, por exemplo, uma adequada e objetiva avaliação de desempenho profissional.

Por fim, todos estes aspectos podem ser favorecidos por um modelo de gestão já desenvolvido, estruturado e testado e que poderá acelerar o crescimento dos profissionais e da instituição. Resistência? Deve-se ter apenas aos baixos resultados por falta de foco na melhoria dos processos.

Linha Direta. Revista de Innovación, Educación y Gestión. Edición 168. Año 15, Março de 2012. Páginas 80 y 82.
Publicación Mensual de Sinepes, Anaceu, Consed, ABMES, Abrafi, ABM, Fundación Universa y Sieeesp – Brasil.
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